
Sousa, no Sertão paraibano, sediou nesta segunda-feira (15) mais uma etapa do Programa Viva Mais Cidadania, iniciativa do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), por meio da Secretaria Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa.
Na Paraíba, a ação conta com as parcerias do Instituto Federal da Paraíba (IFPB) e da Fundação de Educação, Tecnologia e Cultura da Paraíba (Funetec), através da gestão administrativa e financeira, e tem o propósito de discutir o processo de envelhecimento das comunidades, promovendo, protegendo e defendendo os direitos humanos e fortalecendo a cidadania de pessoas idosas em situação de vulnerabilidade e daquelas que são vítimas de discriminação múltipla, pertencentes a grupos sociais caracterizados por diversidades histórica, social, étnico-racial, econômica, territorial, cultural e religiosa. Na cidade do Sertão da Paraíba, o Programa é voltado para a comunidade Cigana Calon, a maior da América Latina.
No Campus do IFPB em Sousa, uma roda de conversa deu voz direta aos idosos, que relataram os desafios cotidianos. A mediação foi conduzida pela assistente social Paloma Miranda, coordenadora do projeto de extensão “Educação para os Direitos Humanos e Cidadania da População Idosa da Comunidade Calon”. Foi ela quem mobilizou a comunidade e explicou a dinâmica do encontro, marcando a conclusão de um ciclo formativo.

Ao longo de quatro encontros anteriores, foram debatidos direitos fundamentais como saúde, educação, saneamento básico, trabalho, previdência social, cultura e lazer. Com essa base consolidada, a iniciativa avança agora para uma fase prática. “O problema comum a toda a comunidade é a falta d’água, trabalho e moradia digna”, afirmou Paloma. “Hoje, os idosos reforçaram essas prioridades e, desta vez, tudo foi registrado em áudio e vídeo. Esse material será a base para um documento oficial, que tem como objetivo principal tirar os ciganos da invisibilidade.”

A ação desta semana no Campus de Sousa do IFPB contou também com a presença de Cybelle Alves, representante da UNESCO. Ela é responsável pelo monitoramento do Programa Viva Mais Cidadania em toda a região Nordeste e explicou os próximos passos.
“O Programa Viva Mais Cidadania não distribui recursos específicos para garantir uma demanda que a gente encontra. A gente forma as pessoas para que elas tenham consciência e saibam fazer o encaminhamento das demandas que têm. O governo federal não libera um recurso específico para atender, por exemplo, a demanda da água. Então, nesse momento, a nossa parte é entregar de maneira imediata o relatório para que as providências sejam tomadas. E essas providências são os encaminhamentos para os governos, os encaminhamentos para os órgãos que são responsáveis pela garantia dos direitos que eles têm: o acesso à água, os direitos básicos, o direito ao saneamento básico, o direito à saúde, o direito à educação. Os direitos que estão na Constituição Federal”, explicou a representante da UNESCO.
Ceticismo e relatos de exclusão: a voz da comunidade
Apesar da estrutura oferecida pelo projeto, um sentimento de desconfiança histórica permeia a comunidade. O ceticismo surge de promessas não cumpridas ao longo de gerações. Tita, maestro e violonista, expressou essa frustração de forma contundente: “Eu vim pra essa reunião por consideração a você, Pereira e a Paloma. Não acredito em promessas mais. Nunca alcancei nenhuma. Eu toco violão, sou capacitado. Tenho capacidade para tocar em qualquer lugar, mas nunca recebi nenhuma oportunidade. Tenho uma orquestra, sou o maestro, mas a gente só se apresenta de graça porque ninguém dá oportunidade aos ciganos”.
O relato de Moreno ilustra como o preconceito estrutural se manifesta no acesso ao emprego, agravando a vulnerabilidade econômica: “Eu tenho uma filha que já terminou os estudos. Ela já entregou currículos em vários lugares e, quando ligam [avisando que ela vai lá], já tem outro no lugar. A gente é muito discriminado. Os poucos que trabalham de carteira assinada trabalham catando lixo ou no trabalho braçal”.

Já Mirabeau abordou a pobreza extrema e fez um apelo à liderança interna: “Há uma falta de carinho que a sociedade tem com os ciganos. 80% da comunidade cigana é pobre. Muitas mulheres saem para pedir de manhãzinha e voltam no final da tarde sem nada. Eu gostaria que os nossos líderes, quando pegassem esse recurso, dividissem bem direitinho. O grande líder não despreza o seu povo”.
Invisibilidade estatística: a barreira do registro civil
Para além das carências materiais e da discriminação, uma barreira burocrática fundamental perpetua a exclusão: a falta de registro civil. Sem documentos oficiais, os indivíduos não existem perante o Estado, dificultando o acesso a políticas públicas e distorcendo qualquer diagnóstico demográfico.
A representante da UNESCO, Cybelle Alves, destacou o paradoxo vivido pela maior comunidade Calon da América Latina: “Quando a gente vai pesquisar, por exemplo, na internet, eles dizem que essa comunidade que tá aqui em Sousa é a maior comunidade cigana Calon da América Latina, né? Mas não existe o percentual. Muitos nem têm carteira de identidade”.
Ela ressaltou a urgência dessa demanda: “O próprio Pereira, que é o representante da comunidade e ajuda a mobilizar as pessoas para o Programa, não soube quantificar. Então, eu vejo isso como uma demanda também urgente, porque os recursos vêm a partir de um número, né? Para quantas pessoas? Aqui não tem número, eles ficam invisibilizados”.
O projeto em Sousa cumpre, assim, uma dupla função essencial. Primeiro, torna visível o invisível, transformando relatos orais de necessidades urgentes – como água, trabalho, moradia e documentação – em um documento formal que será encaminhado aos órgãos competentes, pressionando por respostas concretas. O registro em áudio e vídeo garante autenticidade e força às reivindicações.
Em segundo lugar, a iniciativa demonstra a importância da gestão técnica especializada para transformar diretrizes de políticas públicas em ação real no território. É nesse ponto que a Funetec atua de forma estratégica. Ao assumir a gestão administrativa e financeira do programa “Viva Mais Cidadania” em parceria com o IFPB, a Funetec reafirma seu compromisso com seus princípios fundamentais: viabilizar projetos de impacto social, promover a cidadania e garantir que a educação e a cultura sejam ferramentas efetivas de inclusão e transformação para as populações mais vulneráveis do estado. A fundação não apenas apoia, mas opera a logística que permite que vozes historicamente silenciadas, como as dos idosos ciganos Calon, sejam finalmente ouvidas e encaminhadas às instâncias de poder.
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