
Administrado pela Funetec, em parceria com a UFPB e o MEC, o Programa já mudou a realidade de centenas de paraibanos
Aos 55 anos, Creuza Pereira dos Santos redescobriu o mundo pelo ato simples e profundo de aprender a ler. Creuza é uma das cerca de 350 pessoas que, a cada semestre, têm acesso gratuito à conclusão do Ensino Fundamental e Médio dentro do campus universitário através da Educação de Jovens e Adultos (EJA). O programa é gerenciado pela Fundação de Educação, Tecnologia e Cultura da Paraíba (Funetec) em parceria com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e viabilizado pelo Ministério da Educação (MEC).
O Programa EJA/UFPB é uma das poucas iniciativas no país que oferecem essa modalidade de ensino dentro de uma universidade federal, unindo a estrutura acadêmica de excelência à gestão eficiente da Funetec. O MEC, por meio da SECADI (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão), financia o programa via Termos de Execução Descentralizada (TED), garantindo bolsas, material didático e suporte pedagógico.

Foi nesse ambiente que Creuza, depois de ficar 38 anos longe da sala de aula, decidiu mudar sua história. “Não sabia nem escrever meu nome", revelou.
Creuza casou-se aos 14 anos. Engravidou cedo. O tempo de estudar ficou para trás: "quando eu tive tempo de estudar, eu não estudei. Fui cuidar de filho", contou. A filha mais velha tem 38 anos – exatamente o tempo que a mãe passou sem abrir um caderno.
O analfabetismo funcional não a impedia de viver, mas a impedia de participar. A virada veio com o celular: "eu recebia mensagens nos cantos que eu não podia ouvir áudio. Aí eu queria mandar sem saber, aí tive que ir pro colégio pra aprender", relembrou Creuza. Foi assim, por causa do WhatsApp, que a aluna bateu na porta da EJA.
No começo, ela não sabia nem escrever o próprio nome: "hoje eu já tô na oitava série, e tô aqui, tô lendo tranquilamente", comemorou.

Diferente de muitas mulheres que tentam voltar a estudar, Creuza teve um aliado essencial: o marido. "Meu marido não se importa, eu vim estudar, ele me traz todo dia, vai me buscar", disse, e compara a realidade dela com a da vizinha, que tem o mesmo desejo, mas não consegue: "o marido dela não deixa. Eu digo: 'mulher, vamos enfrentar, vamos quebrar isso'", comentou.
O apoio também vem das filhas. Quando a tarefa (como ela ainda chama) fica difícil, as duas sentam ao lado para ensinar: "melhorou bastante pra mim", avaliou.
Rotina de trabalhadora: sair às 5h, voltar às 17h, estudar à noite
Creuza não é só aluna, é trabalhadora. Durante quatro meses esteve desempregada, mas sua rotina clássica é brutal: "às cinco horas da manhã eu saio pra trabalhar, chego de cinco horas da tarde, faço a janta e venho pro colégio", descreveu. Mesmo cansada, não falta.
Ela trabalhou 17 anos na limpeza de um escritório de advocacia. Lá, aprendeu na prática o que muitos só veem nos livros: rotina jurídica, termos legais, procedimentos. O patrão, reconhecendo o potencial, dizia: "Creuza só não faz audiência porque não tem OAB", recordou.
Seu próximo objetivo, depois que terminar a EJA, é cursar Direito: "eu quero ter um diploma. Eu sei que tô longe, mas eu queria fazer Direito. Tá pertinho, é bem aqui", afirmou a estudante.
Hoje, Creuza lista as conquistas do dia a dia com orgulho: lê carta, lê placa de ônibus, ajuda outros na parada, entra numa recepção e identifica os nomes. "sem você ler um nome, a visão é outra", disse. Ela compara: "eu não sabia nada disso, não sabia nem o A. E hoje não, hoje eu escrevo, faço tudo", completou.
Ao ser perguntada sobre o que diria para os professores, Creuza não nomeia um. Agradece a todos: "não tenho nem como agradecer. São cinco professores, a diretora, a Jô (inspetora), a merendeira… Eu amo todas elas, gosto demais. Da merendeira aos professores, gosto de todos", finalizou.
E conclui, com a simplicidade de quem encontrou na educação mais do que letras: "a leitura é tudo. Abriu várias portas pra mim".

A parceria da Universidade Federal da Paraíba com o Ministério da Educação no programa de Educação de Jovens e Adultos não é exclusiva da Paraíba. A UFPB coordena, junto à Cátedra UNESCO, o Pacto Nacional pela Superação do Analfabetismo e Qualificação na Educação de Jovens e Adultos (Pacto EJA), que tem abrangência nacional. Para além das aulas, destinadas aos estudantes com idade mínima de 18 anos que não tenham concluído o Ensino Médio, a universidade desenvolve cursos e formações para educadores e formadores regionais de todo o Brasil, fazendo com que os alfabetizadores e professores de diversas regiões brasileiras participem de capacitações e jornadas formativas criadas pela instituição. A Funetec gerencia esse programa, fundamental à alfabetização, à elevação da escolaridade e à integração à qualificação profissional na educação de jovens e adultos, desde dezembro de 2022.
TEXTO: Vitória Lisboa (Estagiária)
FOTOS: Renato Britto
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